Ficar grávida, é imaginar-se saindo do hospital somente com o bebe nos braços, de preferência de vermelho para dar sorte, amparada pelo marido, pais e amigos íntimos, chegar em casa, receber visitas para verem seu lindo bebe e conversarem sobre toda via sacra ou não do parto.
Mas algumas vezes não é assim, alias, não foi assim comigo, quando sai do hospital foi de braços vazios, uma mão amparada pelo marido que segurava minha mala e a outra carregando minha bolsa.
Entrei grávida e sai sem bebe algum, deixei ele lá, não porque eu quis, mas porque Deus ou alguma força superior assim quis.
Quando descobri estar grávida, tive um misto de todas as sensações do mundo, todos os pensamentos do mundo, dos melhores aos mais tristes.
Me apeguei muito, chamava meu bebe de
“Meu raio de sol”, porque bebes, mesmo antes de nascerem transformam nossas vidas, e se tornam tão especiais a ponto de nos fazerem viver por eles. Era pra ter sido meu primeiro bebe, alias, eternamente vai ser meu primeiro bebe, vou ter mais filhos, mas ele sempre será o primeiro.
Um sábado frio de março, tive um sangramento, ao chegar no hospital o médico constatou que eu estava tendo o inicio de um aborto. Pensei comigo, como assim inicio de aborto ??? Eu fiz tudo certo, não bebo, não fumo, não carrego peso, não me esforço em nada,tenho me alimentado corretamente, tomo rodas as vitaminas necessarias pra ele, sou saudável, meu marido é saudável, somos jovens, sem abortos na família, o que esta acontecendo ??????
Fui internada, e medicada para segurar o bebezinho dentro de mim, para uma ultra-sonografia na manhã seguinte, porque cheguei ao hospital durante a tarde e a ultra seria feita somente no dia seguinte pois já eram mais de cinco horas da tarde.
Alguma coisa dentro de mim martelava meu juízo, dizendo que não estava certo, que tinha algo errado, e sinceramente, acho que mulher sente quando as coisas não andam nos eixos.
Manhã seguinte a fática noticia
” há um bebezinho Julia, porem não tem batimentos cardíacos, vamos ter que tira-lo!”Fiquei desesperada com a noticia, chorava como criança, coloquei a mão na barriga e achei um absurdo meu bebe não ter mais vida, afinal de contas, eu o queria tanto ...
Induziram meu aborto com ocitocina e mais um medicamento via vaginal, um transtorno. Doía sem parar, as contrações uterinas viam em espaços inferiores a meio minuto, a dor partia das costas , tomava toda minha região do abdômen, e por mais que não quisesse me separar do bebe, o corpo fazia força para expelir, porque simplesmente não podia ficar ali.
Foram horas a fio dessa maneira, sentindo essa dor torturante, e nada do bebe sair, as dores eram tão intensas que as náuseas viraram vômitos em poucos segundos. Me olhei no espelho e procurei por aquela Julia sorridente que sempre acha uma explicação obvia e positiva para tudo, porém dessa vez não havia uma explicação racional que me convencesse.
Por fim das contas, tanto sofrimento foi inútil, inútil porque doeu, doeu de vomitar, de suar frio, de tremer, de me fazer perder as forças, doeu de tudo isso, porque era eu fazendo força sozinha, o bebe não ajudava, não tinha vida, infelizmente não havia um coraçãozinho batendo ali, e tudo se resumiu em uma curetagem.
Confesso que quando a medica disse curetagem, eu fiquei com medo, mas a dor era tamanha, que eu queria apenas parar de sentir dor. Entrei em jejum e as 16:50 foi a ultima vez que olhei no relógio, porque dormi como um anjo e não senti nada.
Tiraram meu bebe de dentro de mim.
Se uma curetagem dói fisicamente, não, não dói, a dor é mais profunda, é o coração que aperta e que chora quando eu lembro, porque eu realmente queria aquele bebe.
Após a curetagem soube, que embora grávida de três meses, meu bebezinho havia parado de se desenvolver com dois meses, e que o aborto no fim das contas, seria inevitável.
O problema é uma má formação, e a natureza, sabia do jeito que é, não deixa com que a gravidez vá ate o fim, talvez para poupar a mamãe de mais sofrimento, em talvez parir um bebe que já nasça sem vida, porque tudo é dolorido, mas sendo realista, parir um bebe sem vida, sem expectativa de aconchego nos braços, dói muito, e deve doer mais do que eu sofri, porque eu sei que tem gente que sofreu mais que eu nessa vida.
E eu vim embora, sai do hospital com os braços vazios, amparada pela mao do meu marido, que gentilmente carregava minha mala, e tinha o mesmo semblante de dor que eu,e eu carregando minha bolsa.
Tudo correndo bem, ate que essa semana o sangramento decorrente da curetagem aumentou vertiginosamente de volume, pensei com meus botões novamente que havia algo errado, já era pra estar acabando e não sangrando assim.
No dia seguinte ao dia que o sangramento aumentou, estou eu bonitinha no mercado a fazer comprinhas para meu lar doce lar, quando noto uma mancha na minha calça e sinto o quentinho descendo, olhei ,a manchinha havia virado uma manchona, e como não esquento muito com as coisas, coloquei a bolsa na frente e vamo que vamo, e a mancha aumentando, quando cheguei no caixao espirrei, e não precisou demais nada, pra nada mais nada menos que metade da minha calça cinza ficar cinza e vermelha.
Passei as compras normalmente, afinal de contas, esperei na fila, assim como todo mundo, e quem estivesse incomodado com a minha calça manchada e meu cheirinho de sangue, que saísse dali. Passei as compras e fui embora, mas foi em casa que via proporção doida da coisa, e corri ao medico.
Bora fazer mais um exame de toque pra verificar se meu colo esta aberto ou fechado,e pimba, fechado, mas a medica receosa indicou uma ultra-som.
Vou eu no dia seguinte fazer a ultra, no retorno com a medica dali uma meia hora
“ Julia, você vai ter que ser internada pra recuretar!”, e bora internar de novo.
A medica explicou que na primeira curetagem não raspou muito meu útero não, pra evitar machucar, achou estranho que meu útero estivesse tão grande para o pouco material que tinha, e como feto, saco gestacional e demais coisas foram retiradas, o que ficou era sangue, que seria expelido, e foi, mas tiveram que tirar o restante que estava lá.
Resultado, fiquei mais 3 dias no hospital.
Cheguei em casa hoje, estou ótima, e em breve vou ficar grávida de novo pra ter um bebe lindo, gordinho, branquelo como os pais e totalmente saudável.
Se eu tenho medo ??? Infinitos, tenho medo da dor, tenho medo de sofrer uma outra perda, tenho medo de não ser boa mãe, mas principalmente tenho medo de não ser feliz, e se eu não tentar não vai dar pra saber se serei mais feliz ou não.
E eu vou tentar, porque aqui na vida eu to a passeio e eu quero mais é ser feliz !!!
• Resumi bastante mesmo tudo que aconteceu, mas eu suma foi isso.